RETRATO DO INVISÍVEL

Um ser capaz de sorrir,
Em circunstâncias nas quais,
Eu me sinto mutilado.
Em que momento fui esse,
Que perante o que abomino,
Demonstrou tanta frieza?
Dentro de mim, o procuro.
Para entender o cinismo
Que me levou a tratar
Com tamanha indiferença
Um pedido de socorro
Insistente, angustiante
Gritado por uma voz
Que me era familiar.

O medo das opressivas
Lentes que fotografavam
Falou mais alto de novo.
O competente fotógrafo
Às sombras já destinou
Com seus efeitos modernos,
Todas as imperfeições,
As rugas, olhos fechados.

E os estilhaços causados
Pela lancinante dor
Não afetaram a imagem,
Pois alguém já os varreu
Para baixo do tapete.

Mais uma vez, estanquei
O sangue para não verem.

Apenas existe espaço
Para o belo, doce, terno.

Não importa se sorri
Ou rangi de dor os dentes.
Mais uma vez, me deixei
Transformar no que queriam,
Outra vez, violentado
Sem ter chance de defesa.
Será que o homem do retrato
Tem direito de ser mais
Do que um sorriso patético
Coercitivo, que é dado
Só ele sabe a que preço?

Ou estarei eu fadado
A sempre ser corroído
Por essas gélidas lentes
Que subvertem, paralisam
Não apenas minha imagem.
Mas também minha existência.
Minando as forças que tenho.
Limitando-me, fazendo
De mim, superfície rasa?
Mas isso não interessa.
Afinal, tudo que importa
É um sorriso espontâneo.
Dores no espírito passam.
(Ao menos, dizem que passam)
As imagens são eternas.
Ninguém liga se elas mentem
Ou se dizem a verdade.

1 Comment

  1. Sublime retrato

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