VERBORRAGIA

Minha voz poética se calou.
O lirismo presente em mim deseja vorazmente gritar a plenos pulmões.
Mas o seu brado foi silenciado pela aridez de uma alma ressequida, cujas palavras foram extirpadas brutalmente, tornando-a irreversivelmente estéril.
Nela florescem apenas agora ideias mirradas, incompetentes, com raízes fracas.
Incapazes de se manterem em pé, não trazendo nem ao menos um resquício das coisas que a mim são inerentes e verdadeiras.
Essa voz foi soterrada pelos escombros que existem em mim, por consequência de um devastador tornado que me desconstruiu completamente, levando-me a buscar desesperadamente o que de fato, faz parte de mim. Verdade é que em meio a tanta desorientação, me perdi até daquilo que sempre acreditei ser “eu,” das facetas que me são conhecidas em meu caráter, nas quais essa voz se manifestava outrora. As nuances de minha personalidade que essa tormenta trouxe à tona se mostram a mim completas estranhas, que me tiram da zona de conforto. Arremessando-me bruscamente ao desconhecido. Algumas são selvagens, brutas, outras, desejo manter imersas, ocultas acima de tudo de mim. Sobretudo a verdade incontestável, aquela de que fujo de modo sôfrego e incessante. Corro de modo a exaurir minhas forças de algo que me persegue aonde quer que eu vá, que segue pulsando dentro de mim e me dilacerando lenta e dolorosamente: o fato de que sou muito grande para caber em definições simples, ou me adequar a concepções convencionais e cômodas de mundo. Serão essas partes tão indomáveis e controversas que a voz sufocada escolherá como canal para dar seu grito e renascer dentro mim, pungente, e mais viva do que nunca?Sei que a desconstrução causada por esses ventos tempestuosos é algo definitivo, irreversível, quer seja isso bom ou ruim. Cabendo a mim, enfrentar o que achar debaixo dessas ruínas, acolhendo essas coisas com serenidade, respeito e afeto. Lembrando-me sempre que são estradas em direção a mim mesmo. E ainda que a voz esteja amortecida agora, cedo ou tarde irá se reacender. E se é nessas coisas que residem os tortuosos caminhos que a voz decide trilhar, em algum ponto dessas sinuosas estradas, eu estarei esperando por ela.

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